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Os argumentistas e a liberdade individual

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 24.10.09

Penso ter já referido aqui que tenho saudades de bons documentários. E que vi bons documentários na televisão nos anos 90.

Agora são mais raros, mas hoje, agora mesmo, vi um na TvCine 2, sobre um argumentista que prezava a liberdade acima de tudo e que sofreu na pele ter defendido os seus princípios: Dalton Trumbo.

 

O documentário está muito bem concebido: vários actores conhecidos lêem cartas ou textos seus, desde a sua juventude até à velhice, momentos cruciais da sua vida, momentos-chave.

Como a odiosa Blacklist e a perseguição a tantos artistas de Hollywood com consequências trágicas para muitos.

O documentário inclui igualmente excertos de filmes com argumentos seus, em que se nota o tom dominante e inspirador, de um enorme respeito pela liberdade individual.

Inclui também imagens da época, dos interrogatórios, da pergunta abominável, da terrível escolha de muitos que eram pressionados a denunciar os amigos.

E inclui depoimentos dos próprios filhos e de amigos e de filhos de amigos que permaneceram ao seu lado nesses anos da perseguição paranóide.

Dalton Trumbo foi interrogado pela Comissão (ou lá como se chama aquela estrutura) e, após acusação de desrespeito pelo 83º Tribunal, foi preso em 1950. Ele próprio dirá mais tarde a um jornalista que concordara com a sentença, pois ele não tinha nenhum respeito por aquele Tribunal.

Duas cartas suas, lidas pelos actores, foram escritas na prisão, e assinadas Preso nº 7551.

Dalton Trumbo queria acreditar que aquele, o denunciante, não era o rosto da América. Queria acreditar que o rosto da América era o rosto de tantos anónimos que tinha encontrado ao longo do seu percurso, pessoas comuns nas situações mais diversas, que se lhes perguntasse se gostariam de uma pessoa que denuncia um amigo, todos lhe responderiam que não.

 

Os seus textos são belissimamente bem concebidos e inflamados, quase parecem poemas épicos. E de facto, dá-lhes essa dignidade, a esses anónimos e às suas vidas, a dignidade de escolherem ser livres, de escolherem não denunciar os seus pares. Há também a dignidade da vida em si, pois ao abordar o tema da guerra, da morte, coloca esse direito de viver do lado de cada indivíduo, o direito de escolher não ser morto nas guerras de poder de outros.

Mesmo após a febre persecutória da Blacklist, os argumentistas que nela constavam não podiam assinar os seus trabalhos. Isso aconteceu igualmente com Trumbo que utilizou diversos nomes fictícios e, em pelo menos dois casos, nomes reais, de amigos que não tinham sido acusados.

E não a esquece, à Blacklist, nem esquece os amigos, insiste em lembrar cada uma daquelas vidas destruídas,essa imperdoável e irreparável perda de energia, de sonhos, de talentos.

E tem a consciência e a lucidez de perceber que isso está latente, que pode surgir de novo, que todos os governos de todo o mundo têm a tendência para querer controlar a vida dos cidadãos.

Para Trumbo esta interferência dos governos na vida das pessoas é simplesmente inadmissível. E a sua referência é a própria Constituição Americana.

 

É verdade que este documentário me emocionou. E não foi só a mim, os próprios actores não ficaram indiferentes aos seus textos.

O mais inquietante foi um desabafo seu, já entradote, em que começava a duvidar se a maioria das pessoas, entre a segurança, o abrigo, a alimentação, de um lado, e a liberdade de expressão do outro, não escolheria a primeira.

 

De qualquer modo, são autores assim que inspiram e revelam um outro caminho em que cada indivíduo pode tentar preservar a sua dignidade e a vida a que tem direito.

São autores que souberam escolher um caminho adverso, que não abdicaram dos seus princípios, que nos mostram essa possibilidade.

Numa época tão adversa à liberdade individual como a nossa, em que a escolha da segurança parece tornar-se quase automática, em que nem se reflectem opções e as suas consequências e em que se valoriza o sucesso a qualquer preço (essa outra forma de histeria), os textos de Trumbo ganham uma dimensão muito actual.

 

O documentário também aborda o papel da indústria do Cinema na época. Mesmo que tenha querido passar isenta e distante, na verdade colaborou activamente nesse processo persecutório ao despedir e anular contratos com os referenciados na Lista.

Como Trumbo refere, o poder tenta vergar um indivíduo começando por lhe retirar a segurança económica, baixando-lhe o seu padrão de vida. E aqui a indústria colaborou.

É por isso que o Cinema-arte é magnífico! Porque a sua verdadeira dimensão e magia está muito para além da indústria que o mantém, está nalguns dos seus realizadores, argumentistas, produtores e actores corajosos que souberam defender o seu melhor trunfo: a liberdade de cada indivíduo.

 

 

 

 

 

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publicado às 00:15


2 comentários

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De António Rosa a 02.11.2009 às 11:10

Adorei o seu blogue sobre cinema e documentários. Também sou fã. Li muitos posts, mas voltarei para ler outros. Muito obrigado. Vai já para a minha lista de blogues preferidos.

António
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 02.11.2009 às 11:53

António
Que amável! Obrigada.
Descobri o seu blogue pelo Facebook, através do nosso amigo Mak! Adorei, sobretudo os posts sobre filmes.
Ana

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